O QUE APRENDI COM A PERDA DE MEU FILHO

Sim, este é um relato sobre a perda que tive recentemente de meu filho recém-nascido. Ele esteve entre nós pouquíssimo tempo, mas nos ensinou muito.

Quando falamos de perda, podemos estar nos referindo a diversas perdas no decorrer da vida, as vezes nem tão simples quanto a perda de um lápis, um papel, ou mais complexas como a perda de um carro ou de dinheiro.

Mas também podemos estar falando de algo mais complexo ainda, de uma perda que signifique realmente algo para nos, mesmo que aquela caneta, aquele lápis, aquele papel ou carro tenham um “valor sentimental”, como costumamos ouvir por aí.

Mas as grandes perdas, principalmente, de pessoas que amamos, nos expõem ao nosso lado mais frágil e sensível que temos enquanto seres humanos. E este relato talvez possa expor um pouco do que sinto.

Passados os dias, noto uma mudança nos ares, uma verdadeira “cura pela palavra” como Freud nos ensinara. Mas, muito mais do que isso, notei uma sensação de alivio pelo tempo mais árduo que está passando, pelos momentos de angústia e extrema raiva contida em algum lugar do corpo e da mente.

Este, não deveria ser um artigo tanto pessoal e íntimo e sim mais científico, mas se o for me perdoem, a ideia não é ser pessimista quanto ao futuro, mas sim, compartilhar a dor e o conhecimento. Algo que aprendi com o tempo, com os estudos, mas, mais ainda, com essa perda, que compartilhar, dividir os problemas faz parecer mais fácil, pois carregamos menos peso, dividimos o peso da angústia e da tristeza com aqueles que nos rodeiam e nos amam.pensamentos-sobre-a-dor-de-perder-tempo-e-oportunidades-2

Há várias formas de tentarmos nos enganar ou, até mesmo, de acharmos respostas para o que não tem uma resposta correta ou errada, tentamos nos engajar numa jornada espiritual por rotinas religiosas que tentam nos consolar sobre nossa incapacidade de sermos resilientes, até atingirmos o limite de nossa razão, colidindo com a emoção mais forte que já sentimos. Mas garanto, a perda de um filho gera mais conflitos do que soluções, inicialmente.

A perda nos remete a algo ruim, negativo, nos faz sair daquela zona de conforto, em que estamos habituados de nos sentimos felizes, por engano, “o resto de nossas vidas”. A perda nos engana, no sentido de que algo está tão errado, tão fora de rumo, tão distante daqueles nossos sonhos e desejos de que queremos e tentaremos realizar algo em curto ou longo prazo, seja sozinho ou com a família ou amigos. Mas devemos olhar através disso tudo, devemos mudar o foco da atenção por alguns momentos para, realmente, entendermos o real motivo de estarmos tentando sempre achar soluções e explicações para tudo. As vezes nem tudo tem ou exige uma explicação lógica, coerente, racional, psicológica, médica ou biológica.

O ser humano é muito curioso, talvez me engajei nessa aventura de ser um psicólogo, por ser curioso, por ser desacomodado e não aceitar uma mera resposta, por não querer aceitar apenas o que me dizem “de cara”, e é assim que continua sendo com a perda de um filho. Algo a mais me motivou a escrever sobre essa perda, que não é a usual para nossas vidas, não é? Pois sempre ouvi dizer que o “filho deve enterrar o pai”, pois acredito nisso também, mas acredito no sentido de que seria mais uma forma de eu me conformar ou por que me disseram isso tantas vezes que já gravei no meu inconsciente e consigo, de alguma forma, me aliviar e sentir menos culpa?

Mas não se engane, quanto mais escondemos o que está nos atormentando, mais somos forçados a mentir para nós mesmos, é como se fosse lutar contra a correnteza, nunca a venceremos nadando contra ela.

Aprendi também, em um curto espaço de tempo, que não existe certo e errado, existe o que me faz bem e o que não me faz bem. E o que realmente me faz bem é estar com minha família, com as pessoas que me querem e desejam o bem, que possam compartilhar comigo todas minhas emoções sejam ela positivas ou negativas.

Nas nossas perdas diárias, precisamos tentar nos convencer de que somos fortes o suficiente para tentar esquecer a dor, mas também temos que ser fortes para saber quando precisar de ajuda profissional e da própria família. Isolar-se e sentir-se deprimido é normal nas primeiras semanas, mas é importante que quanto mais o tempo passe, mais a dor vá dando lugar para uma saudade mais saudável do que dolorida.

Devemos sempre lembrar que a diferença entre uma depressão e uma tristeza é o tempo de duração, a intensidade e o quanto nos desorganiza no nosso trabalho, com nossa família, com nossos amigos e conhecidos.

Anderson Cassol Dozza – neuropsicólogo