Janeiro Branco e a Psicoeducação: Um olhar da Neuropsicologia

O Janeiro Branco é uma campanha que pretende mobilizar a sociedade sobre o tema da saúde mental. Começou em 2014 em Minas Gerais, com um grupo de psicólogos preocupados com o crescente número de casos de depressão, ansiedade, fobias, pânico e violência, evidenciando o quanto as pessoas precisam começar a cuidar também de aspectos mentais e emocionais de sua vida.

É fácil constatarmos a relevância da campanha, é só pensarmos, por exemplo, que quando falamos em saúde do corpo, todos aceitam o cuidado preventivo. Procuramos cuidar da alimentação, da higiene dos dentes, praticar exercícios com o melhor tênis para evitar impacto ás articulações.  Mas, e da mente? O estresse, os problemas financeiros e familiares, a violência, as inseguranças e a sobrecarga cognitiva a que somos demandando diariamente, será que isso não causa impactos a nossa saúde emocional? Parece mais do que adequado que cuidemos desses impactos também. Para isso a campanha prevê que dediquemos atenção e tempo a cuidar de nossas emoções.

Diversos estudos demonstram que pessoas que distinguem melhor suas emoções e não apenas as consideram em blocos dicotômicos como emoções boas versus emoções ruins tendem a possuir melhores condições de resolução dos problemas do cotidiano. Aliás, esse é um dos vieses da campanha “Quem cuida das emoções, cuida da vida”. Sabemos cada vez mais sobre diversas tecnologias, da construção de arranha-céus a exploração de outros planetas, mas a grande maioria de nós ainda tem dificuldades de identificar e compreender em si mesmo emoções como raiva, angústia, medo, ciúmes, saudade, euforia e processar isso de forma saudável e acurada. E é para isso que o Janeiro Branco surge, para lembrarmos que isso precisa ser mudado. Precisamos aprender e praticar mais o autoconhecimento, o autocontrole e a auto realização..   Neste sentido o mês de Janeiro foi especialmente escolhido para a campanha por ser o primeiro mês do ano, época em que se iniciam novos ciclos em que as pessoas fazem novos planos, traçam metas e têm a sensação de um novo começo. A cor branca  representa  o papel em branco, no qual escreveremos  uma nova história pessoal, e porque não dizer da saúde mental, sem os tabus e preconceitos que a cercam.

Equivoca-se quem pensa que o Janeiro Branco sirva apenas para convocar pessoas á psicoterapia, sim a psicoterapia pode ser muito útil no processo de autocuidado e de melhora da qualidade de vida, mas este não é nem o único e nem o principal foco da campanha. Aliás, em janeiro de 2017 o Conselho Federal de Psicologia publicou nota de posicionamento apoiando o objetivo da campanha e informando  que o papel da Psicologia vai muito além do incentivo à psicoterapia, e perpassa a proteção e fortalecimento das políticas públicas na área de saúde mental e na garantia de direitos. Entendo, e existe um manifesto dos próprios organizadores neste sentido, que o foco da campanha é a Psicoeducação.

Para a Neuropsicologia a Psicoeducação, ou seja, literalmente educar as pessoas a respeito de determinado aspecto cognitivo ou psicológico, é uma técnica essencial visto que possibilita reestruturação cognitiva. Quando as pessoas são informadas de como funciona o seu modelo cognitivo, podem identificar pensamentos ou crenças disfuncionais(como persistir em formas de relacionamento pouco adaptativas ou vícios  por exemplo) e desta forma  sentem-se mais aptas para buscar a mudança. A psicoeducação auxilia as pessoas a libertarem-se dos automatismos cognitivos desagradáveis e adotarem a atenção controlada necessária para entenderem o que pensam e sentem, e não apenas reagir da maneira habitual às situações com as quais se envolvem.

Psicoeducação é aprendizagem, e aprendizagem é uma forma de produzir  neuroplasticidade! Ou seja, a cada nova aprendizagem, através de reações neuroquímicas e sinápticas, modificamos nosso cérebro e aumentamos nossas reservas cognitivas. Portanto precisamos sair do analfabetismo emocional e aprender e educar sempre. Precisamos aprender a lidar com as nossas emoções e com as emoções do outro, entender a subjetividade humana e, sobretudo democratizar esses processos de psicoeducação.  E para isso nós profissionais da saúde, em especial psicólogos, temos um papel importante na disseminação e desmitificação de informações sobre saúde mental. Portanto nós psicoeducamos na psicoterapia sim, na reabilitação ou na devolutiva da Avaliação Neuropsicológica, ou ainda em um grupo ou palestra.  Mas devemos   psicoeducar também  em casa, nas relações de  trabalho, com os amigos, com os familiares,  no clube, no trânsito, no shopping, na igreja, na praia…nas mídias ou em qualquer lugar, pois as emoções acontecem onde a vida acontece!! A psicoeducação nos permite sair do piloto automático e assumir a gestão cognitiva, afetiva e emocional de nossas vidas. E você já (se) psicoeducou hoje?

Márcia Baiocchi Amaral

Neuropsicóloga CRP 07/13656

Especialista em Neuropsicologia pela FADERGS e pelo Conselho Federal de Psicologia

Neuropsicóloga Neurovasc

 

Bibliografia:

LIMA, Isabela M. Magalhães. MALLOY-DINIZ, Leandro F.(2017). Porque é difícil mudar hábitos? Coleção Interfaces em Neurociências. São Paulo: Pearson.

GINDRI et al (2012) . Métodos em reabilitação neuropsicológica. In: Landeira-Fernandes, J., Fukissima, S.(orgs). Métodos em neurociência. São Paulo: Manole.

CAMPANHA JANEIRO BRANCO. (2018). MANIFESTO: Sem psicoeducação não haverá solução – por uma Revolução da Subjetividade e por uma Cultura da Saúde Mental. Disponível em: http://janeirobranco.com.br/sem-psicoeducacao-nao-havera-solucao-por-uma-revolucao-da-subjetividade

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. (2017) Nota de Posicionamento sobre a Campanha Janeiro branco. Disponível em: http://site.cfp.org.br/nota-de-posicionamento-sobre-a-campanha-janeiro-branco/