Compulsão Alimentar: Não é frescura, não é fracasso, é coisa séria e merece ser tratada com atenção e empatia

O comer compulsivo é considerado uma doença do Transtorno Alimentar quando os episódios de compulsão são regulares e sem uso de métodos purgativos, ou seja, sem a presença de vômitos auto induzidos, uso de laxantes ou diuréticos, exercícios físicos extenuantes e jejuns prolongados como é o caso da Bulimia Nervosa.

Além disso, os episódios de compulsão alimentar são momentos de acentuado estresse e desconforto. As características desse transtorno são: comer extremamente rápido até se sentir desconfortavelmente cheio, comer grande quantidade de comida mesmo sem fome, comer sozinho e escondido (a) por vergonha de si mesmo (a), onde sentimentos de tristeza e culpa estão sempre presentes, além de que a sensação de perda de controle é muito intensa.

O transtorno de compulsão alimentar (TCA) é frequentemente associado à depressão, baixa autoestima e piora na qualidade de vida, o que acaba prejudicando a relação que as pessoas afetadas tem com o próprio corpo e com a comida.Muitos indivíduos comem tanto que chegam a vomitar, porque o estômago não suporta tanto alimento. Segundo dados de especialistas, algumas pessoas chegam a consumir até dez mil calorias em um único ataque compulsivo.

Pessoas com TCA não reconhecem seu problema central (muitas vezes nem imaginam ter um transtorno alimentar), não percebem os “gatilhos” para a compulsão, são impulsivos, desorganizados, apresentam dificuldade de controle em geral, além de apresentarem sérios problemas com a imagem corporal e carência de amor próprio.

Eliza Sella Battisti Nutricionista Comportamental

Indivíduos com TCA apresentam maior dificuldade em planejar as refeições, as compras, o tempo de preparação dos alimentos e a conciliá-los com as atividades diárias. Eles acabam comendo somente quando estão com muita fome, após alguma situação de estresse que às vezes passa despercebida, e como não possuem planejamento e organização acabam consumindo qualquer alimento disponível, em qualquer lugar e na maioria das vezes sem a devida atenção. Eles sentem-se culpados e podem manter esse comportamento até perder definitivamente o controle.

A maioria das pessoas com TCA procuram tratamento para perda de peso e, muitas vezes, nem mencionam os episódios de compulsão. No entanto, o foco do tratamento não deve se concentrar na perda de peso (mesmo quando se faz necessário), da mesma forma que restrições alimentares devem ser desestimuladas, visto que dietas não funcionam a longo prazo e acabam intensificando o sentimento de fracasso e insatisfação corporal que o paciente compulsivo enfrenta diariamente.

Dessa forma, a mudança de comportamento é que deve ser o objetivo fundamental do tratamento.Contudo, pesquisas apontam que a grande maioria dos profissionais de saúde não se sentem preparados para identificar transtornos alimentares, e de cada dez pessoas que têm a doença somente uma receberá tratamento adequado. Isso é tanto quanto desanimador, pois o tratamento é caro e de difícil acesso: requer múltiplos profissionais especializados e muitas vezes são necessários gastos adicionais com medicações e/ou suplementos. E quanto mais se demora pra iniciar o tratamento, quanto mais se demora pra identificar a doença, pior é o prognóstico de cura. O paciente com suspeita de TCA deve buscar ajuda com profissionais especializados, visto que o tratamento considerado eficaz segundo a literatura combina Terapia Cognitivo-Comportamental, acompanhamento psiquiátrico e terapia nutricional.

Assim sendo, o Nutricionista como Terapeuta Nutricional deve buscar estratégias para eliminar as compulsões alimentares e promover a mudança de comportamento, auxiliando o paciente a ter uma alimentação equilibrada e a desenvolver uma boa relação com a comida e seu corpo. Muitos pacientes não recebem um diagnóstico e não sabem que estão doentes, julgando-se muitas vezes como fracassado, preguiçoso e com falta de força de vontade.

Nesse sentido, o principal desafio do terapeuta nutricional é ajudar o paciente com TCA a reconhecer seu problema e mostrar a ele uma alimentação mais flexível e gentil a fim de restabelecer a confiança que ele tem em si mesmo e se reconectar com seu corpo. Além disso é importante incentivar a pratica de comer de forma intuitiva e com atenção plena a fim de ajudar o paciente a identificar suas emoções, como angustia, ansiedade, tristeza, tédio, e como lidar com elas sem usar a comida para isso.

Por fim, a alimentação deve cumprir a missão de nutrir, gerando prazer a partir de características sensoriais do alimento e das sensações fisiológicas de saciedade. Diante disso, é fundamental que o paciente aprenda a ter uma maior permissão para comer, resgatando a importância do comer por prazer e desmistificando crenças de alimentos proibidos e permitidos ou saudáveis e não saudáveis.

 

Nutricionista Eliza Sella Battisti

Especialista em Comportamento Alimentar

CRN2: 13496