Como tratar a sequela do AVC

O acidente vascular encefálico (ou cerebral), também conhecido como AVC (ou AVE) ou popularmente chamado de “derrame cerebral”,  pode ser de dois tipos: isquêmico ou hemorrágico.

O AVC isquêmico ocorre em cerca de 85% das vezes. É responsável por uma mortalidade de 8 a 12% em 30 dias após seu início e dos sobreviventes cerca de 66% precisarão de ajuda para realizar suas atividades de vida diária ou serão institucionalizados devido a suas sequelas. Já o AVC hemorrágico corresponde a cerca de 15% dos AVC e tem uma incidência de 10-20 casos por 100 mil/habitantes. A mortalidade chega a ser de até 40% no momento do sangramento.

O AVC isquêmico é uma obstrução aguda de um vaso sanguíneo cerebral, assim, a área atingida deixa de receber os nutrientes e ocorre a morte celular (isquemia/infarto). O AVC hemorrágico ocorre por uma ruptura de um vaso sanguíneo cerebral e, assim, o sangue espalha-se pelo tecido cerebral causando compressão e sequelas. As principais causas são a hipertensão arterial sistêmica, aneurisma cerebral, malformações artério-venosas, uso de drogas (cocaína, anfetamina), tumores, uso de anticoagulantes.

Como já falei em outras colunas, o tratamento agudo ainda é de difícil acesso para a maioria da população, além de existirem poucos centros especializados. Assim, acabam ocorrendo muitas sequelas, sendo a principal a espasticidade (enrijecimento da musculatura). A espasticidade é uma causa comum de perda funcional nos sobreviventes do AVC, ocorrendo em 17 a 43% no primeiro ano. Como não há tratamento efetivo a espasticidade causa dor e endurecimento dos músculos, deformando e limitando os movimentos, causando uma perda significativa da qualidade de vida, além de limitação funcional ao trabalho.

O tratamento da espasticidade precisa de abordagem com reabilitação física (fisioterapia) e medicamentosa. O principal medicamento utilizado é o baclofeno oral, mas frequentemente traz resultados abaixo do esperado e causa muitos efeitos colaterais com doses mais elevadas. A toxina botulínica tipo A (ex.: Botox) tem uma resposta boa na espasticidade focal (em poucos músculos), mas é inadequada para controlar os sintomas por longos períodos e em pacientes com espasticidades em vários músculos (multifocal).

Atualmente, existe uma nova opção terapêutica para o tratamento da espasticidade que se chama bomba intratecal de baclofeno. Neste procedimento um aparelho contendo baclofeno injetável (líquido) é colocado no subcutâneo da região abdominal do paciente e através de um cateter colocado dentro da coluna vertebral (espaço subdural) libera a medicação diretamente sobre os nervos. Assim, uma dose cerca de 1000 vezes menor da medicação é necessária para se conseguir um efeito benéfico, além de ser mantida uma infusão ininterrupta.  A terapia intratecal é efetiva na redução da espasticidade dos membros superiores e inferiores, aumentando a força motora, reduzindo a dor, melhorando o caminhar e a velocidade do caminhar, tanto quanto aumentando a independência funcional e a qualidade de vida. Mas apesar de tanto benefício menos de 1% dos pacientes com sequela de AVC atualmente são tratados com a terapia de baclofeno intratecal.

Apesar do grande avanço da medicina ainda a tecnologia não está beneficiando a todos que a necessitam. Acredito que com a transmissão do conhecimento mais pessoas possam ter sua qualidade de vida melhorada!

 

Dr. Diego Cassol Dozza

neurocirurgião