Canabidiol e o uso no controle da epilepsia

A epilepsia é uma doença neurológica na qual ocorrem crises convulsivas de repetição. Existem vários tipos de crise convulsiva que numa classificação mais simples são divididas em parciais e generalizadas. As crises convulsivas parciais são aquelas em que ocorre um comprometimento focal do encéfalo e é o tipo de crise mais comum. Mas um tratamento pode ajudar, e muito, as pessoas que sofrem dessa doença: o uso de canabidiol.

  1. O que é a epilepsia grave e porque ela ocorre?

São epilepsias de difícil controle com o tratamento medicamentoso. Alguns pesquisadores têm definido como indivíduos que apresentem pelo menos uma crise epiléptica por mês por um período mínimo de 2 anos e que durante este período pelo menos três diferentes medicações antiepilépticas tenham sido utilizadas em monoterapia ou politerapia sem sucesso.

Algumas epilepsias encerram um prognóstico grave, levando a quadros de atraso neuropsicomotor e sequelas cognitivas (memória, atenção). Muitas delas iniciam na infância, sendo muitas vezes chamadas de encefalopatias epilépticas. Alguns pacientes podem ter mais de 20 crises epilépticas por dia, mesmo em vigência de tratamento medicamentoso. A origem das epilepsias é variável, mas os casos graves geralmente são associados a lesões estruturais do sistema nervoso central como malformações ou lesões anóxicas neonatais (paralisia cerebral). Também podem ter origem genética e algumas vezes não se encontram alterações que justifiquem a doença.

Estima-se que a epilepsia afete aproximadamente 0,5 % da população e que cerca de 30% dos pacientes continuam a ter crises, sem remissão, apesar de tratamento adequado com drogas antiepilépticas.

 

  1. O uso da substância canabidiol tem sido alvo de estudos que envolvem desde o controle de ansiedade, epilepsia grave a distúrbios do sono e Parkinson. O que faz do canabidiol tão versátil para ser aplicado nessas condições?

Os canabinóides agem no corpo humano através da ligação com seus receptores. No sistema nervoso central o receptor CB1 está localizado na membrana das células dos neurônios e possui grande expressividade. O canabidiol age no receptor CB1 inibindo a transmissão sináptica por bloqueio dos canais de cálcio e potássio dependentes de voltagem (isto é, bloqueia a transmissão entre os neurônios). Desta forma, acredita-se que o canabidiol  possa inibir as crises epilépticas.

Também apresenta outros efeitos que se encontram em fase de estudo:

  • efeito anti-oxidante potente, que em parte explica seu possível efeito neuroprotetor na Doença de Parkinson.
  • estudos em ratos demonstraram redução  da ativação microglial, o que,  potencialmente, poderia lentificar  a progressão da Doença de Alzheimer
  • seu potente efeito no combate a náuseas e vômitos já é bem descrito e está provavelmente relacionado a capacidade de modulação na transmissão serotoninérgica.
  • Potencial efeito no tratamento de distúrbios psiquiátricos como depressão e ansiedade, por ter ação em áreas límbicas do cérebro (áreas da emoção)

 

  1. Como o canabidiol (CBD) se diferencia de outros medicamentos disponíveis até então? 

Se diferencia por agir em receptores específicos para esta substância em neurônios cerebrais, o que ocasiona os efeitos  terapêuticos da medicação. Porém algumas de suas ações como bloqueio de canais voltagem dependentes no encéfalo e ação anti-oxidante são comuns a outros tipos de medicações, porém em proporções diferentes.

A Cannabis sativa é uma planta que contém aproximadamente 60 compostos farmacologicamente ativos . O canabidiol foi identificado em 1963 e é um destes componentes (chegando a representar mais de 40% dos extratos da cannabis). Tem as características de ser não psicoativo (não causa alterações psicosensoriais) e de ter baixa toxicidade e alta tolerabilidade em seres humanos e animais. O canabidiol, de acordo com pesquisadores, não causa efeitos psicoativos ou dependência.  Porém deve-se lembrar que a cannabis (popularmente conhecida como maconha) pode gerar dependência e sintomas psicóticos, esse efeito provem principalmente de um de seus componentes: o delta-9-tetraidrocanabinol, que não está presente no canabidiol.

 

  1. O que muda na vida dos pacientes que passam a fazer uso do canabidiol?

Foi realizado um estudo na Escola Paulista de Medicina, no qual se avaliou o efeito do canabidiol em 15 indivíduos com diagnóstico de epilepsia focal temporal com generalização secundária. Durante 4 meses, 8 destes receberam  cannabidiol e os outros receberam placebo (substância inativa). Quatro dos indivíduos que receberam cannabidiol ficaram livres de crises, 3 melhoraram e em 1 a substância não modificou as crises epilépticas. Os 7 indivíduos que receberam placebo ficaram com suas crises inalteradas. Existem relatos mais recentes de pacientes, principalmente crianças, com epilepsias graves que tiveram melhora significativa das crises, inclusive com melhora do desenvolvimento neuropsicomotor. 

 

  1. A liberação do canabidiol abrirá mais espaço para pesquisas no Brasil?

Com certeza. Em dezembro de 2013 a Food and Drug Administration (FDA) aprovou nos Estados Unidos o uso terapêutico do canabidiol em pesquisas para tratamento de epilepsias refratárias em crianças. E recentemente o produto foi liberado pra importação para o Brasil conforme aprovação da ANVISA. Porém necessita-se de mais estudos, principalmente no Brasil para que este produto passe a ser comercializado em nosso país.

 

Dra. Ana Luísa Casado Brasil Dozza – neurologista