As várias faces da demência

Demência é uma deterioração adquirida das capacidades cognitivas que prejudica o desempenho das atividades de vida diárias (AVDs). As principais áreas afetadas da cognição são a linguagem, orientação visuoespacial, cálculo, discernimento, solução de problemas, funções executivas, sendo que a memória é a mais acometida das funções.

Cerca de 10 % das pessoas com mais de 70 anos tem perda significativa de memória e chega a ser de 20-40% nos com mais de 85 anos, sendo que deste percentual cerca de 50% possuem Doença de Alzheimer. O maior fator de risco para a demência é o aumento da idade. A prevalência de perda incapacitante da memória aumenta a cada década acima dos 50 anos.

Mas como ocorrem as demências? A fisiopatologia é bastante complexa e depende de várias vias neuronais de neurotranmissores, da quantidade da perda neuronal e da região específica afetada. Apenas para curiosidade e um pouco de informação são elas: vias noradrenérgicas, serotoninérgicas, glutamatérgicos, dopaminérgicas, colinérgicas e neurotrofinas.

Temos que diferenciar a demência do Esquecimento Benigno do Idoso que faz parte do envelhecimento natural onde há um declínio da memória, mas sem o comprometimento das AVDs. Aos 85 anos uma pessoa é capaz de evocar metade do número de itens  que recordava aos 18 anos.

Outro diagnóstico diferencial é com o Comprometimento Cognitivo Leve. Este já interfere sutilmente nas AVDs e tem uma taxa de conversão para a Demência de Alzheimer de 12% ao ano. Fatores que predispõe para conversão são déficit de memória mais graves, história familiar de demência, presença de Apo E4 e volumes hipocampais pequenos (sei que estas duas últimas informações foram mais confusas, mas deixem isso para os médicos!).Diego

Algumas causas de demência são a Doença de Alzheimer (DA, mais de 50% dos casos), demência vascular (DV), demência associada à Doença de Parkinson, alcoolismo, demência de Corpos de Lewy (DCL), demência Frontotemporal (DFT), deficiência de vitaminas, endocrinopatias ou insuficiência orgânica, neurosífilis, lesão cerebral difusa, hidrocefalia, tumores encefálicos, intoxicação por dorgas/medicamentos, depressão, esquizofrenia, infecções. Fiz questão de citar várias causas para chamar a atenção da importância da investigação diagnóstica correta e porque há algumas doenças tratáveis e com cura.

Resumidamente a DA apresenta como sintomas: depressão leve, retraimento social e negação, habilidades sociais preservadas até estágios intermediaries. A DFT tem alteração de personalidade, apatia, hiperfagia (aumento do apetite), compulsões, desinibição, euforia, perda de empatia. A DCL apresenta alucinações visuais, delírios e flutuação diária. A DV inclui depressão, desinibição ou apatia, delírios.

O fator de risco mais importante é a idade avançada, além da história familiar positiva, sexo feminino, traumatismo craniano, baixo nível escolar, diabete melito, doença cerebrovascular. Outros fatores em potencial: hipertensão arterial, níveis de homocisteína elevados, colesterol, ácido fólico reduzido, baixa ingestão de frutas e sedentarismo.

Sei que ficou um texto “pesado”, mas era justamente isso que eu queria para chamar a atenção da complexidade da demência, que não é só o Alzheimer. Muitos me procuram para saber sobre a prevenção. Agora já tem um embasamento sobre as atividades e cuidados de vida que devem ter, sabendo que algumas vezes a genética se impõe. Voltarei a falar mais sobre esse assunto.

Dr. Diego Cassol Dozza

Neurocirurgião