As Crianças e as Redes Sociais: considerações quanto ao neurodesenvolvimento

Há alguns meses, após diversas situações polêmicas, as redes sociais Facebook e Instagram anunciaram que iriam começar a banir ativamente perfis de crianças que fingem serem maiores de idade para usar as redes sociais. Fato é, que todos os dias observamos, inclusive dentro de nossas casas, incontáveis jovens navegando livremente e muitas sem supervisão de ninguém.

Sabe-se que o uso de rede social pode estimular a interação de pessoas, diminuir fronteiras e constituir-se em um espaço democrático. Alguns estudos até mostram que crianças e adolescentes que utilizam as redes sociais exercitam mais sua autonomia e criatividade enquanto dialogam com o mundo, pois são encorajadas a dar opinião, divulgar trabalhos, expressar seus gostos. Contudo este uso não pode ser indiscriminado ou sem supervisão.  Tudo o que é postado nas redes– fotos, textos e tudo o mais – fica disponível para muitos verem, inclusive pessoas mal-intencionadas. O que deixa as crianças mais vulneráveis a práticas ilícitas como a pedofilia, a divulgação de dados pessoais com más intenções, ou de criminosos que tentam aliciar crianças pelas redes.

Além disso, ao adentrarem a este mundo virtual ocorre a exibição da vida íntima da criança e do adolescente usuário de redes sociais, o que se não for dosado e supervisionado pode levar a uma crise de identidade que ainda está em formação, ou ainda a situações de constrangimento e ciberbullying. Episódios que constato na minha prática clínica estrem se tornando cada vez mais frequentes. Diante do aumento destas situações é que as redes sociais tomaram este posicionamento de banir perfis de crianças, o que pode ser uma medida bastante adequada, visto que não se tem como ter controle de tudo que acontece nas redes (exposição, comentários, etc…).

Também sabemos que uso demasiado destas redes pode interferir no desenvolvimento das crianças. A formação da identidade está ligada a ideia de pertencimento ao mundo, fazendo com que a exteriorização de acontecimentos da vida seja cada vez mais recorrente. Contudo esta necessidade humana é elevada a máxima potência nas redes sociais, havendo uma superexposição, principalmente dos mais jovens que ainda não sabem dosar o que é adequado ou não. Então a excessiva exposição nas redes sociais pode influenciar negativamente a formação dos sujeitos, sendo que muitas vezes os adolescentes ficam reféns da busca por aceitação, seguidores, likes, por se encaixar em determinados padrões. E quem não se encaixa ou não “atinge esses padrões irreais de felicidade muitas vezes tem problemas de autoestima e na estruturação de uma personalidade saudável.

Além disso,  crianças são colocadas diante de uma tela cheia de infinitas possibilidades e informações em uma fase da vida em que  ainda estão desenvolvendo a capacidade de discernir o que é verdadeiro ou falso e bom ou mau. Assim, a rede vira uma porta aberta para diferentes perigos, como por exemplo ser continuamente exposto a cenas  de violência , a criança pode entender que aquilo é uma coisa normal, aceitável e vários estudos tem demonstrado que que a normalização da violência é tão perigoso quanto ser exposta a violência diretamente.

Orientar e supervisionar os mais jovens ainda é o mais importante, e esta tarefa cabe, sobretudo a família. A primeira regra é respeitar a idade imposta pelo site/rede social, pois permitir que a criança minta para entrar em uma rede é como lhe dar uma lição de falta de ética!!Pois passa aos filhos a mensagem que fraudar regras é permitido para benefício próprio. Quando já possuem idade para participar, ainda assim os pais devem se perguntar: Meu filho já tem maturidade suficiente para estar em uma rede social e lidar com todas as informações a que terá acesso lá? Se a reposta for não é melhor esperar mais um pouco para este uso. Além disso, o uso das redes e dos jogos eletrônicos também precisa ser dosado (ficar o “dia inteiro” na rede traz prejuízos a vida social, familiar e aos estudos).

Os últimos estudos sobre os impactos das novas tecnologias ao neurodesenvolvimento são enfáticos ao afirmar que até os 2 anos a criança não deve usar qualquer tipo de tecnologia (redes sociais, internet, jogos eletrônicos…). Dos 2 aos 5 anos exposição a tecnologias no máximo 1 hora por dia. Pois nessa fase a criança deve é brincar, que é importantíssimo para o desenvolvimento motor, cognitivo, social e emocional. Além disso, já se sabe que o uso de tecnologia na primeira infância diminui a interação pais- filhos prejudica o desenvolvimento da linguagem e atrasa muito o desenvolvimento das funções executivas (memória de trabalho, iniciativa, inibição, planejamento, organização etc..). Após os 7 anos a indicação é de no máximo 2 horas de uso de computador/tablet/celular para qualquer atividade, pois a partir de 3 horas já ocorre efeitos deletérios aos Sistema Nervoso Central. A luz azul dos equipamentos tem efeitos até mesmo no ritmo circadiano prejudicando o sono e aumentam a liberação de cortisol no organismo.

Por fim, cabe destacar que o diálogo entre pais e filhos ainda é o mais importante. É preciso conversar sobre riscos e a segurança online; falar abertamente sobre conteúdo permitido, atividade inapropriada, ciberbullying e riscos de divulgação de informação pessoal. É essencial ensinar sobre responsabilidade e bons costumes online, que, aliás, podem ser estendidos para o mundo off-line! Mas é preciso dialogar sobre outras coisas também…Em tempos de excesso de mundo virtual acaba por restar pouco tempo para as atividades essenciais da vida humana : amar, proporcionar o desenvolvimento dos seres, cuidar do corpo, da mente  e da alma. Por isso a “solução” para o para os usos indevidos da internet que temos visto não está em proibir ou demonizar a rede, mas está sim nos encontros, nos laços,  no vínculo e na comunicação real!   

Márcia Baiocchi Amaral

Neuropsicóloga CRP 07/13656-