Ansiedade Antecipatória: A carroça na frente dos bois

Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado, onde as trocas de informações acontecem num instante, as mensagens são instantâneas, as respostas são virtualmente acessadas, todos sabem de tudo um pouco, mas acontece que o cérebro humano não acompanha tudo isso da mesma forma. Então, sofremos, o cérebro sofre, o corpo e a mente também, as vezes em silêncio, as vezes numa explosão de sentimentos e comportamentos inadequados.

Há um excesso de informação, acessado rapidamente e não há uma válvula de escape para tudo isso, o cérebro absorve muito rapidamente mas não libera com a mesma velocidade, ocorrendo então alguns problemas de saúde tanto física quanto mental, causando graves desconfortos e desorganizando as pessoas.

Como coloquei no título, há um quadro de transtorno de humor ligado à ansiedade, que causa tanto desconforto e dificuldades quanto qualquer outro tipo de transtorno. Se imaginarmos o quão difícil seria colocar a carroça na frente dos bois, a imagem dessa cena seria até mesmo engraçada, mas no fundo é um absurdo, até mesmo por que os bois teriam que empurrar a carroça, talvez fazendo um esforço ainda maior.

A ansiedade antecipatória está relacionada com processos que acontecem em nível mental, ou seja, na forma de pensamento, e aparece quando imaginamos o pior que pode acontecer em uma determinada situação futura, provocando estresse ou uma grande preocupação. Por exemplo: se você ouvir no trabalho que possivelmente haverá demissões, mas não se tem certeza quando e nem quantos serão demitidos, poderão vir certos pensamentos como “e agora, o que vou fazer?”, “tenho que procurar outro emprego e o dinheiro?”, “eu tenho uma família para sustentar”.

Há, portanto, um fluxo de atenção apenas num futuro hipotético e negativo, não tendo possibilidade de se pensar no aqui e agora, no presente. É como pensar apenas em coisas ruins, que nada dará certo ou acontecer da pessoa se achar incapaz e insuficiente para realizar tal tarefa, talvez não havendo espaço nem para uma tentativa do “pode dar certo”. Se pensarmos que a ansiedade é uma coisa boa, pois ela auxilia a nos prevenir de um perigo que ainda não aconteceu, que ela ajuda a lidar com os desafios do dia a dia, assim ela será de grande ajuda. Mas, se a virmos como algo ruim, ela nos prenderá no chão e não conseguiremos mais nos mover, ficaremos paralisados esperando que algo aconteça ao nosso redor para mudar determinada situação e, como resultado disto, adoeceremos.

Com toda essa carga de ansiedade e preocupações estendidas à um futuro incerto, podem aparecer certos sinais de que a mente anda muito ocupada, como tontura, taquicardia, transpiração, dor no peito, formigamento nas mãos ou pés e/ou tremores. Ainda, pode haver fadiga, irritabilidade, insônia e inquietação. Cognitivamente há alteração da atenção, ocorrendo mais erros de percepção das coisas e do mundo ao redor, afetando inclusive a memória, ocorre uma dissociação das ideias a respeito de si próprio e do mundo. Em casos mais graves pode ocorrer um Transtorno de Ansiedade Generalizado, Transtorno Obsessivo Compulsivo ou até Fobias.

O psicoterapeuta Agusto Cury vem trabalhando com a ideia da Síndrome do Pensamento Acelerado, onde os pensamentos acabam emergindo de maneira tão rápida que acaba causando a ansiedade. Ele ainda coloca que podemos pensar que o excesso de informações, de trabalho intelectual, atividades diárias, preocupações, uso da tecnologia como smartphones, tablets e games, estaria auxiliando para esse excesso de fluxo de pensamento.

Assim, sofrer em excesso e por algo que ainda não aconteceu está de certa maneira em nosso “DNA emocional”, parece que sempre fomos ensinados a esperar o pior, porém, também é importante aprendermos a pensarmos no “e se…” de forma positiva, mudando a forma de pensar, como “Talvez algo de bom aconteça”, “Talvez eu possa ir bem na prova”, “Talvez eu não seja demitido”. Com tudo isso acontecendo como podemos nos prevenir de uma ansiedade mais grave? Talvez possamos pensar na forma de como pensamos, parece ser meio redundante, mas, quando você se ver pensando em eventos futuros, em hipóteses negativas, do que pode dar errado, o melhor é focar no presente, focar naquele momento que se está vivendo, ou na atividade em que se está trabalhando. Pense em algo que já havia conseguido anteriormente, um emprego novo, um carro novo, uma promoção, algo que já realizou com sucesso.

Pensar no pior que pode acontecer, às vezes nem sempre é o pior que acontece, às vezes o pior acontece apenas na imaginação que corre solta, mas pode ser controlada. Também ficam as dicas mais básicas, fazer exercícios físicos regulares, ter uma alimentação saudável e regular, uma qualidade de sono adequada, aprender a dizer “não” para o que não lhe agrada, respeitar o próprio limite físico e mental e sempre procurar ajuda, pois não precisamos enfrentar os problemas sozinhos.

Como já relatei em outros textos, sempre tempos que ver a questão de tempo de duração de uma ansiedade, a frequência e intensidade, as vezes um medo ou uma ansiedade normal duram poucos minutos e passa, mas quando isso não acontecer é importante procurar ajuda de um profissional especialista na área de saúde mental.

Quero terminar com essa frase do Dalai Lama: “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ONTEM, e o outro se chama AMANHÃ, portanto HOJE é o dia certo para AMAR, ACREDITAR, FAZER e principalmente VIVER”.

 

Anderson Cassol Dozza – neuropsicólogo