A BALEIA AZUL: NO FUNDO DO POÇO OU NO FUNDO DO MAR?

Vivemos num mundo cada vez mais individualista e materialista, onde aspectos como a condição física ou o rendimento financeiro são mais importantes do que o estado de espírito e a família, estes estando em segundo plano. Quando falamos em adolescência onde há uma linha tênue entre os aspectos antes citados.

Pensamos numa fase do desenvolvimento humano mais conturbada, onde os hormônios estão “a flor da pele” e outros interesses tomam conta dos pensamentos dos jovens. Por isso, torna-se tão importante estarmos atentos ao mínimo de mudança nessa idade, principalmente, cabe aos pais e familiares estarem com atenção redobrada.

Atualmente tem-se falado muito sobre o Desafio da Baleia Azul, onde o jovem precisa completar 50 tarefas incrivelmente e hediondas, até que a última seja tirar a própria vida. Ele deve seguir ordens de um curador, que vai observando e orientando os adolescentes nas tarefes seguintes. Vários sinais levam a crer que quem “recruta” esses jovens já tem alguma ideia do estado de humor deles, provavelmente já tem contato em sites de depressão ou grupos de autoajuda. Por isso, os pais, responsáveis, familiares e amigos, devem sempre prestar atenção em alterações súbitas de humor do adolescente, bem como apatia, isolamento social, irritabilidade, alteração da qualidade de sono e do apetite, comportamento de risco e pensamentos suicidas, que também são indicadores de que algo está errado.

Outro fato que vem preocupando os especialistas é a questão de que crianças estão tentando cada vez mais o suicídio. É um fato novo e que vem aumentando estatisticamente, o que nos faz pensar em mudanças tanto nas políticas públicas de atendimento à crianças e adolescentes, quanto no próprio manejo dos pais e familiares em conjunto com os profissionais da saúde.suicidios-1443837958-30

Outros profissionais acabam destacando a questão da negligencia quanto à discussão do tema, em alguns casos é banalizada e transformada em um velho clichê: “ele só quer chamar a atenção”. Eu concordo com isso, ele realmente está querendo chamar a atenção, ou seja, dizer que precisa de ajuda o quanto antes, que sua vida está desorganizada e sem sentido, que seus problemas chegaram a um estágio tão avançado que sozinho não conseguirá resolver. Portanto, antes que chegue nesse ponto, é importante prestarmos atenção nesse jovem que quer “chamar a atenção”, mas com um outro olhar, um olhar mais significativo, mais atento, mais observador.

Esse “fenômeno” do jogo da Baleia Azul, vem apenas fomentar essa velha discussão sobre o suicídio, aliada às questões da modernidade e da tecnologia, que acabam promovendo um catalisador na urgência do jovem de se enturmar o quanto antes, de fazer parte de um grupo, de criar um sentimento de pertencimento para não ser rechaçado ou criticado. A internet permite isso de maneira espantosamente rápida, o que se chama de “viral”, se torna um vício frenético e leva a lugares muito obscuros e quase sem saída, dificultando a diferença entro o que é real e o que é virtual.

Assim, penso na questão da privacidade da criança e do adolescente, o quanto os pais devem ou podem interferir de maneira saudável e, principalmente, criando um relacionamento de confiança com seu filho. Alguns especialistas referem que não existe essa questão de respeitar a privacidade do filho, principalmente de um adolescente, ele precisa saber que existem regras e limites de até onde ele pode ir. Quem pode cobrar isso dele são os pais, através de diálogo e bom senso, os pais podem abrir um canal de comunicação saudável com seu filho, assim, não havendo esse medo de invadir privacidade, onde não há o que esconder. Se houver respeito, cuidado, afeto e disponibilidade para o diálogo, tanto pais quanto filhos podem negociar o que é privado ou não.

Enfim, quando estamos nos sentindo sozinhos, o mais importante é procurar a ajuda de um profissional capacitado, seja psiquiatra, psicólogo, médico, que possam orientar e ajudar a diminuir a estigmatização do suicídio. Precisamos realmente falar mais sobre isso, não pode ser mais um tabu, não pode mais ficar num canto escuro da nossa consciência, pois assim estamos apenas negando o que está acontecendo ao nosso lado todos os dias.

 

Anderson Cassol Dozza – Neuropsicólogo