13 reasons why – precisamos falar sobre isso!

Um dos assuntos mais comentados nas mídias sociais nas últimas semanas é o seriado 13 Reasons Why – ou os 13 porquês em tradução livre, disponível no streaming de assinatura Netflix, e desde então virou febre mundial. A série traz a tona temas muito importantes como bullying, homofobia e machismo, além de trazer para a discussão sentimentos experimentados na adolescência como solidão, tristeza e a dificuldade de se comunicarem com os adultos em geral, e com a família em especial, e é claro o suicídio.

Falar sobre essas questões tomá-las como importantes e não como “mimimi” com alguns profetizam na internet, assim como alertar pais a prestarem mais atenção aos seus filhos e talvez os próprios adolescentes a pedir ajuda são alguns dos méritos da série.

Contudo é importante termos um olhar cuidadoso, algumas situações são retratadas na série de forma “nua e crua”, portanto algumas considerações importantes precisam ser feitas: A organização mundial de saúde lançou em 2000 uma lista de recomendações para os meios de comunicação abordarem o suicídio de suicídio. A OMS faz três recomendações principais que são totalmente desconsideradas pela série: 1) evitar romantizar o ato do suicídio; 2) evitar retratar o suicídio como uma resposta aceitável às dificuldades; 3) evitar incluir o método, local ou detalhes da pessoa que faleceu; pois deve ser priorizado o enfoque em ações de prevenção e conscientização muito mais do que na morte em si. Esta recomendação foi  ignorada pela série e nos leva a uma questão preocupante que é a possibilidade da ocorrência do efeito wherter (efeito no qual a publicação de um caso de suicídio, principalmente famoso, pode influenciar outras pessoas a seguir o mesmo caminho, como em um efeito cascata) e que os conflitos mostrados ou as cenas retratadas  funcionem como um gatilho para pessoas que encontram-se mentalmente adoecidas ou emocionalmente fragilizadas a buscar no suicídio uma “saída” para seu sofrimento.

13 reasons why

Seriado 13 reasons why na Netflix

Por este motivo, em minha opinião profissional e pessoal, pessoas que atravessam quadros   de depressão, transtorno bipolar, que estejam fazendo tratamento psiquiátrico,  que sejam muito sensíveis, ou  quem já pensaram ou   tentaram  tirar a própria vida não deveriam  assistir a referida séria, sejam adolescentes ou adultos. Não considero a aconselhável, pois pode levar a sentimentos e gatilhos muitos ruins. Mas penso que pode ser interessante para educadores e profissionais da saúde e justiça, que se encontrem em bom estado de saúde mental, que possam sim assistir e problematizar as questões retratadas no seu trabalho com os jovens. Cabe salientar que a prevenção deve ser sempre feita pelo foco da vida e não da morte, ou seja, o que pode ser feito para que as coisas não cheguem a este ponto? Como poderíamos ter ajudado Hanna Barker? Da mesma forma, as famílias também não podem ignorar esse tema, pois muitas vezes os jovens já estão assistindo sem o conhecimento dos adultos, o primeiro passo é o diálogo, perguntar o adolescente sabe sobre isso, se assiste, qual sua opinião e sempre acompanhar de perto e refletir com os filhos sobre o que é mostrado, bem como ficar atento ao comportamento e possíveis pedidos de ajuda.

Não sou a favor do alarde e do pânico em torno do tema, contudo se esta questão vem sido trazida a tona com tanta frequência não é por acaso. Se a série tem um mérito, o mérito é: olhem para os jovens! Não minimize seus sentimentos! Entendo que devemos aproveitar este momento propício para trabalhar o tema da saúde mental, do suicido sim, mas da saúde principalmente. É preciso trabalhar com os jovens questões como autoestima, amor próprio, planos para futuro, diálogo e vínculos. O nosso norte sempre deve ser a produção de vida. Para finalizar vou parafrasear a frase de um psicólogo em uma rede social, que não por acaso é um amigo querido, Henrique Zilli: Em tempos de excesso de mundo virtual e terceirização de tudo: pouco tempo para as atividades essenciais da vida humana (amar, proporcionar o desenvolvimento dos seres, elevar-se espiritualmente). Se a vida perde suas qualidades, a morte que sempre está presente na condição humana marca muitos como única saída. Antídotos para a dor: amor! Para a morte: vida! Para o desespero: fé! Para a desilusão: sonhos reais! Para a solidão: encontros! Solução para jogos/programas/redes sociais destrutivos? Vínculo e comunicação. “Que cada um busque saber por que caminhos seguem as pessoas que estão no seu coração.”

 

Psic. Márcia Baiocchi Amaral

Especialista em Neuropsicóloga